domingo, 14 de dezembro de 2014

Domingo

I

Frutas orgânicas
No rótulo:
Geleia abissal
de bicho escasso

II

Taquaras cantam
na igreja a ciranda
da zagaia sem ponta

III

Meninos azucrinam a Buraqueira
repartem uma fruta do lobo
hóstia pagã
fiéis do terreno baldio

Egon Schiele - Autumn sun and trees

domingo, 23 de novembro de 2014

Soneto Árcade: Lamento olhando pela escotilha*


No singelo prosseguir, ao estonteante Deus clamei
Que deu luz aos verdejantes prados em minha mente
Máquina de caminhos espaciais tão doentes
Foste tu, Apollo, quem deitaste as ilusões que tanto amei

Trocaste os montes belos e delicados de nossa paisagem
Pelas bruscas e solitárias escarpas da Lua, ó quanta vaidade!
A perversa disputa entre NASA e Sputnik era de fato verdade
Minha lira agora lamenta a gélida e russa passagem:

Teu esforço, louro Apollo, não passou de mesquinha resposta
Apesar de tamanha glória entre as Américas.
Pois anos antes, um velho Sputnik  havia já levado a aposta

Para esconder a covardia dos homens e o horror das histéricas
Elegeram o brilho da mais bela pastora, de forma cruel e imposta
Depois de ceifarem sua vida, vibraram em gargalhadas quiméricas


pic: Raisa Faetti

* Título do soneto: Vini Tobias - www.larvaspoesia.blogspot.com

domingo, 9 de novembro de 2014

Reciclagem

As árvores da praça são velhas
é velho o centro da cidade
o dentro de você
é velha a sua pasta
ficou velho o sabor crasso
a luz estreita e vagarosa da via

E agora,
por vagabundagem
ouve-se o melodioso
ranger empenado
desse engenho
que recicla
o peso que havia

Porém mais leve porém mais velho porém mais leve


Puro abuso

Rooms by the sea - Edward Hopper



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Haicai

uma pequena efêmera
explodiu em energia
morreu de hipoglicemia



Aposto no ócio
um grande navio chinês
cachorros com bócio



pião minado sem xadrez
segue pela casa vazia
rei e rainha de copas largas



Escrito com Lucas Ferreira - www.prosadesisifo.blogspot.com.br
São João del Rei, 27 de setembro de 2014

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Olho de Gude

Aqueles olhos mal ditos
buticões de vidro
pingam um licor absíntico
e rolam sobre essa poça
de humor aguado
da realidade das coisas

Um tanto diluídos

olho de peixe
olho d´água
olho morto
olho gordo
olho pelado

Buticões de vidro
desembestados


Yellow

Mil ipês refletindo o sol
a estação não deixa de ser bela
apesar de amarela

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Totens

No vasto capim
dois totens
pairam sobre o dia

átomos se distanciando
balé de elétrons
fractais preguiçosos
movimentos tectônicos

o universo solar
de domingo
em plena expansão.

Marcenaria

Pausa na leitura
eu, esticada no sofá
penso em você:
como deve ser bonita a execução
do ofício santo da marcenaria

Fico desejando ser
fina e reta
a tábua que você alisa
calcula e esquarteja

Nessa hora da luz do dia
tomar vinho na taça do freguês
transformar em peça de deboche
e acabar com o cristo marceneiro burguês

Olho para o livro novamente
e para a ponta dos dedos:
você vai adorar
o meu esmalte preto.


terça-feira, 29 de julho de 2014

Dissecação

Enquanto surfava o roteiro
daquelas alças jejunais
pensava na vida do inocente

Do último esfíncter daquele ser
celestialmente estripado
saía uma doce merda ingênua

porque depois da morte
tudo fica muito romântico
para quem vive, obviamente

- Pelo menos o bicho morreu saciado.

Depois de ter estudado o cadáver
saía cheirando a formol
para matar mais um x-bacon




segunda-feira, 28 de julho de 2014

Guerrilha

As lembranças que tenho
são de você sentado na sala
lendo enciclopédias
respondendo minhas dúvidas
E sempre imagino
quantas vidas você já viveu
desbravou o coração de matas
e mulheres
e dançou, viajou
conheceu tiranos
fugiu da polícia
apanhou da vida
Foste comunista
me batizaste comunista também
Mas agora só se preocupa
com meu cargo público
minha cabeça
meu útero
não entende nada do que eu digo
A culpa não é minha
o signo da vida
foi você quem deu
E para terminar essa avacalhação
me pede para escrever versos de amor
O amor que te matou?
eu não.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Flores




Entre, me entregue as cores
daquela paisagem fresca
que construimos agora há pouco
Vamos tomar um café no quintal
dançando aquele flamenco que ainda ecoa
Prenderei essas flores em meu cabelo
E você dormirá nele
Porque aí ainda existe infância
e você pode demorar
Depois, satisfeitos na preguiça
roubaremos mais flores







terça-feira, 22 de julho de 2014

Tourada

Eram os pulsos
rasgados pelos vitrais de
milenares castelos espanhóis
derramando sobre o povo em festa
sons, cores e danças
O sangue de um bravo touro
o sangue de um toureiro herói
o sangue da pétala vermelha
as veias e artérias
vibrando na carne escassa
o coração na mão
o pulso na mão




quinta-feira, 10 de julho de 2014

Toalete

Sentia-se totalmente confortável
defecando num banheiro público.
Cagar tranquilo
era a expressão máxima
de sua intimidade
com aquela privada
aquela porta e aquele lixo
Cagar ali era um ato de amor
Integração última entre sujeito e ambiente
ambiente de trabalho
um trabalho trôpego
e um sujeito estranho
numa sala hermética
de um prédio público
com um banheiro
sem dono.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A greve

A greve é grave
mas esse mantra mente
o agravo é que é doente

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Zé do redanho seco

Zé do Redanho Seco
homem sisudo feito o sol
tinha esse amargo apelido
pois vendia na cidade pequena
cabritas magras
e com a alma de uma pedra

Chico Girassol
tinha cabeça de semente
que brotava até no cimento
comprava barato
as cabritas do Redanho Seco
E fazia churrasquinho no festival

Os ossos que sobravam
eram limpos por Dona Jacunda
Que fazia deles bijux moderninhas
para enfeitar suas putas

Na natureza nada se perde,
tudo se transborda
Mas amargo feito o sol,
Redanho Seco não fechava a roda
Porque não gostava de comer putas.

As cabritas eram castas
Sofriam e morriam puras
As cabritas do Zé do Redanho Seco
Eram feito as sobras tuas.




quarta-feira, 12 de março de 2014

Poeminha para os cães - 17/02/2014

Numa curva do caminho tinha um cachorro
sentado na sombra do meu descanso
que me olhou e me lambeu
e devagar seguimos
cachorro e eu
o caminho era apenas um pretexto
para o futuro que nos acolheu.