terça-feira, 29 de julho de 2014

Dissecação

Enquanto surfava o roteiro
daquelas alças jejunais
pensava na vida do inocente

Do último esfíncter daquele ser
celestialmente estripado
saía uma doce merda ingênua

porque depois da morte
tudo fica muito romântico
para quem vive, obviamente

- Pelo menos o bicho morreu saciado.

Depois de ter estudado o cadáver
saía cheirando a formol
para matar mais um x-bacon




segunda-feira, 28 de julho de 2014

Guerrilha

As lembranças que tenho
são de você sentado na sala
lendo enciclopédias
respondendo minhas dúvidas
E sempre imagino
quantas vidas você já viveu
desbravou o coração de matas
e mulheres
e dançou, viajou
conheceu tiranos
fugiu da polícia
apanhou da vida
Foste comunista
me batizaste comunista também
Mas agora só se preocupa
com meu cargo público
minha cabeça
meu útero
não entende nada do que eu digo
A culpa não é minha
o signo da vida
foi você quem deu
E para terminar essa avacalhação
me pede para escrever versos de amor
O amor que te matou?
eu não.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Flores




Entre, me entregue as cores
daquela paisagem fresca
que construimos agora há pouco
Vamos tomar um café no quintal
dançando aquele flamenco que ainda ecoa
Prenderei essas flores em meu cabelo
E você dormirá nele
Porque aí ainda existe infância
e você pode demorar
Depois, satisfeitos na preguiça
roubaremos mais flores







terça-feira, 22 de julho de 2014

Tourada

Eram os pulsos
rasgados pelos vitrais de
milenares castelos espanhóis
derramando sobre o povo em festa
sons, cores e danças
O sangue de um bravo touro
o sangue de um toureiro herói
o sangue da pétala vermelha
as veias e artérias
vibrando na carne escassa
o coração na mão
o pulso na mão




quinta-feira, 10 de julho de 2014

Toalete

Sentia-se totalmente confortável
defecando num banheiro público.
Cagar tranquilo
era a expressão máxima
de sua intimidade
com aquela privada
aquela porta e aquele lixo
Cagar ali era um ato de amor
Integração última entre sujeito e ambiente
ambiente de trabalho
um trabalho trôpego
e um sujeito estranho
numa sala hermética
de um prédio público
com um banheiro
sem dono.